Desigualdade de gênero na indústria da construção: uma carta aberta em prol da mudança e da inclusão

Desigualdade e discriminação de gênero são problemas globais, independentemente da área de trabalho e localização geográfica. Desde 2017, realizamos estudos exploratórios para identificar os problemas de desigualdade de gênero existentes no ambiente de trabalho na indústria da construção.

Por um lado, nossa principal motivação para o estudo do tema reside no fato de que a indústria da construção se destaca por sua grande relevância na estrutura econômica global, sendo responsável por grande parte da geração de empregos no mundo, absorvendo profissionais com diferentes níveis de treinamento. Por outro, ela apresenta um ambiente de trabalho predominantemente masculino e bastante suscetível à discriminação.

Segundo dados da Câmara Brasileira da Indústria da Construção, o setor foi responsável por cerca de 124 mil, dos 841 mil empregos formais criados no Brasil em 2019. Esses dados mostram a grande relevância do setor na economia do país e na geração de empregos. Ao se tornar uma referência em práticas de inclusão de gênero, o setor poderá contribuir amplamente para o combate ao desequilíbrio existente, tanto de forma direta quanto pela influência indireta que exerce em outros setores da indústria.

No que diz respeito aos estudos com mulheres em canteiros de obras, é possível observar os mesmos questionamentos em pesquisas realizadas em diferentes lugares do mundo (ou seja, preconceito na contratação, aparente maior custo envolvido devido à adaptação dos ambientes, divisão do trabalho por gênero, falta real de oportunidades de promoção (teto de vidro) e ausência de uma orientação específica para trabalhadores do sexo masculino).

Entre nossas principais constatações, podemos citar a confirmação do abismo que envolve a contratação e manutenção de mulheres na indústria da construção e a reprodução de modelos machistas, tanto por homens quanto por mulheres. Em contrapartida, a sociedade contemporânea buscou evoluir nesse contexto e produziu algum espaço para a distribuição de poderes antes limitados aos homens. O empoderamento experimentado pelas mulheres ao trabalhar em um ambiente predominantemente masculino contribuiu para essa mudança.

Em primeiro lugar, é preciso quebrar o padrão de que as mulheres são a causa do assédio existente nos canteiros de obras. Os colaboradores, de todos os níveis hierárquicos, devem ser treinados e orientados para reconhecer que o respeito e a equidade entre gêneros devem estar sempre presentes no ambiente de trabalho, e na vida. Esse treinamento pode ser feito por meio de reuniões, instruções ou folhetos abordando a equidade de gênero e enfatizando o respeito mútuo.

Além disso, precisam ser tomadas ações para integrar e acolher os funcionários, que podem incluir:

  • identificação de empregos com mão de obra feminina, o mapeamento do perfil e expectativas dos colaboradores;
  • a implementação de uma infraestrutura de ambiente de trabalho adequada para atender às necessidades de todos;
  • o acolhimento e integração das mulheres para evitar a polarização entre as trabalhadoras; e
  • a criação de um canal de comunicação para relatar qualquer insegurança ou desconforto vivenciado durante o trabalho.

Ressaltamos que é fundamental que supervisores e tomadores de decisão estejam atentos ao tema e dispostos a promover mudanças.

Além disso, é importante estimular a participação das mulheres nos sindicatos e na política para estimular a implementação de projetos inclusivos. A criação de normas e políticas públicas é fundamental para estimular a implementação das práticas mencionadas.

Por fim, é importante destacar que, atualmente, nossos estudos têm avançado para uma visão mais ampla da diversidade de gênero existente. Inicialmente focados especificamente na análise da condição da mulher, esses estudos têm se tornado cada vez mais inclusivos, e agora avaliam a situação atual diante da diversidade de gênero existente, uma vez que, atualmente, temos 31 diferentes tipos de gêneros reconhecidos pela Comissão de Direitos Humanos de Nova York.

Nesse sentido, estamos desenvolvendo pesquisas sobre a situação organizacional atual dos canteiros de obras no Brasil, considerando aspectos como gestão da diversidade, assédio e segurança, discriminação, relacionamento com pares e chefia e boas práticas. Faltam estudos que tenham como objetivo preparar a indústria da construção para uma gestão adequada da diversidade de gênero existente, a fim de identificar boas práticas para a inserção de todos os grupos. Tratar a diversidade de gênero de forma mais ampla é considerado fundamental para atualizar as normas vigentes, garantindo ações inclusivas que criem um ambiente favorável, nos canteiros de obras, para todas as pessoas, inibindo a homofobia e a transfobia. É necessário transformar a indústria da construção em um ambiente inclusivo, de diversidade e equidade. Esse é um setor que pode transformar a percepção da sociedade sobre as questões de gênero, uma vez que emprega uma grande força de trabalho, sem basear sua contratação em fatores como raça, gênero, orientação sexual, idade, religião, deficiência ou qualquer outro aspecto.

Ressalta-se aqui a importância dos engenheiros, empreiteiros e gestores de obra como agentes de transformação social, que podem, e devem, contribuir para a inclusão de grupos excluídos da sociedade, garantindo um ambiente de trabalho respeitoso, seguro e acolhedor a todos os seus funcionários, independentemente de gênero.

Autora: Elaine P. Varela Alberte, Universidade Federal da Bahia